Martinho Lutero apresenta uma interpretação bastante definida de Gênesis 6:1–4. Para ele, os “filhos de Deus” não são anjos, mas os descendentes de Sete — a linhagem que preservava a promessa de Deus — enquanto as “filhas dos homens” correspondem às mulheres da linhagem de Caim. Essa leitura aparece diretamente em seu comentário sobre Gênesis.
A interpretação de Lutero sobre Gênesis 6:4
Para Lutero, Gênesis 6 descreve a deterioração espiritual da humanidade antes do Dilúvio. Ele entende que Deus havia estabelecido uma distinção entre duas comunidades: a descendência de Sete, associada à verdadeira adoração e à promessa do “descendente” de Gênesis 3:15, e a descendência de Caim, marcada pela crescente impiedade.
Lutero afirma que os “filhos de Deus” eram aqueles que possuíam a promessa do Descendente bendito e pertenciam à verdadeira Igreja. Quando esses homens começaram a desejar as mulheres da linhagem de Caim, ocorreu uma ruptura espiritual: aqueles que deveriam permanecer fiéis à Palavra de Deus passaram a escolher seus relacionamentos principalmente segundo seus desejos.
O problema, portanto, não era o casamento ou a geração de filhos em si. Lutero enfatiza que a procriação é uma bênção de Deus. O pecado estava na maneira como esses homens passaram a escolher suas esposas: “a quem quisessem”, desprezando a autoridade dos patriarcas e, sobretudo, a vontade de Deus.
Isso ajuda a entender a sequência do texto:
Gênesis 6:2 → desejo desordenado
Gênesis 6:4 → surgimento dos “valentes”/homens de renome
Gênesis 6:5 → multiplicação da maldade
Gênesis 6:7 → juízo do Dilúvio
Para Lutero, existe uma progressão moral: quando o homem abandona o temor de Deus, seus desejos passam a governar suas decisões; e, quando os desejos governam, surgem também violência, opressão e outros pecados.
E quem eram os “gigantes” ou nefilim?
Aqui aparece outro aspecto interessante da interpretação de Lutero. Ele não aceitava simplesmente a ideia de que os nefilim fossem gigantes devido ao tamanho físico. Em sua leitura, o termo estava relacionado à ideia de homens violentos, opressores ou tiranos. Comentários posteriores que analisam Lutero registram essa interpretação e observam que ele rejeitava a explicação de que os nefilim fossem simplesmente gigantes físicos.
Assim, Gênesis 6:4 não precisaria ser entendido como uma narrativa sobre seres sobrenaturais produzindo uma raça híbrida. Para Lutero, trata-se essencialmente da corrupção da humanidade, inclusive daqueles que pertenciam à comunidade que anteriormente conhecia e preservava a promessa de Deus.
E quanto à interpretação de que eram anjos?
Lutero conhecia essa interpretação e a rejeitou. Em seu comentário, ele menciona a antiga interpretação judaica segundo a qual os “filhos de Deus” seriam seres demoníacos envolvidos sexualmente com mulheres. Lutero considera impossível que dessa união entre demônios e seres humanos fossem gerados filhos.
Isso é importante porque demonstra que a interpretação “anjos + mulheres humanas” não é a única interpretação historicamente antiga, nem foi universalmente aceita. Há uma longa história interpretativa envolvendo as três principais possibilidades: seres angelicais, descendentes de Sete e outras leituras. Um estudo acadêmico da USP apresenta justamente esse debate histórico em Gênesis 6:1–4.
Nota teológica importante
A interpretação de Lutero deve ser distinguida daquilo que o texto hebraico necessariamente exige. Gênesis 6:1–4 é um dos textos mais debatidos do Pentateuco. Há intérpretes que entendem “filhos de Deus” como seres celestiais, enquanto outros, como Lutero, entendem a expressão como referência à linhagem de Sete. A literatura acadêmica registra essa divergência de maneira explícita.
Portanto, ao apresentar essa interpretação em um estudo bíblico, é mais preciso dizer:
“Segundo Martinho Lutero, os filhos de Deus de Gênesis 6 eram os descendentes piedosos de Sete, enquanto as filhas dos homens pertenciam à linhagem de Caim.”
Isso representa corretamente a posição de Lutero sem transformar sua interpretação em uma conclusão consensual de toda a exegese cristã.
Notas bibliográficas
1. LUTERO, Martinho. Comentário sobre Gênesis, exposição de Gênesis 6:1–4. Lutero interpreta os “filhos de Deus” como aqueles que receberam a promessa do Descendente e pertenciam à verdadeira Igreja.
2. BURNS, Jesse. “Bible Study with Luther: Genesis 6:1–8.” Lutheran Reformation, 2 jun. 2017. O estudo reproduz e contextualiza a interpretação de Lutero sobre os descendentes de Sete e Caim.
3. VAILATTI, Carlos Augusto. “Os ‘filhos de Deus’ e as ‘filhas do homem’: as várias interpretações dadas a Gênesis 6:1–4.” Vértices. Universidade de São Paulo. O artigo apresenta o desenvolvimento histórico e acadêmico das principais interpretações do texto.
4. KEIL, Carl Friedrich; DELITZSCH, Franz. Commentary on the Old Testament: Genesis 6. A obra também registra a interpretação de Lutero sobre os nefilim e sua rejeição à ideia de que fossem simplesmente gigantes físicos.
Em síntese: para Lutero, Gênesis 6:4 não ensina que anjos tiveram relações sexuais com mulheres humanas. O texto retrata, em sua leitura, a queda espiritual dos descendentes de Sete, que abandonaram a separação entre a comunidade da promessa e a linhagem de Caim, permitindo que o desejo, a corrupção e posteriormente a violência dominassem a humanidade antes do Dilúvio.
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